#8M

Por: Mariana Assef, Julia de Paula e Joelma Costa — Rede Meu Recife

Nesta semana do 8 de março, Dia Internacional da Mulher, diferentes questões precisam ser debatidas. Há décadas reforça-se o senso comum de que a data teria surgido em memória às mulheres vítimas de um incêndio em 1857, em Nova Iorque. No entanto, essa narrativa não passa de um mito que invisibiliza a história de luta e mobilização das mulheres do final do século 19.

Essa data, que foi oficializada pela Organização das Nações Unidas (ONU) somente em 1970, e que hoje é considerada por muitos apenas como um dia festivo, frequentemente é utilizada como um instrumento de apagamento da resistência histórica das mulheres, principalmente das mulheres negras, pobres, indígenas, trans e travestis, que eram excluídas da agenda do feminismo liberal.

Campanha vitoriosa do Meu Recife.

Angela Davis, referência na história da militância de mulheres negras nos Estados Unidos, contra a discriminação social, racial e de gênero, denunciou não apenas os ínumeros casos de sexismo dos homens naquela época, mas também de racismo dentro do movimento sufragista, que embora reinvidicasse o direito ao voto, era formado em sua maioria por mulheres brancas de classe média e alta.

No Brasil, mulheres como Lélia Gonzalez, ativista e intelectal negra, pioneira nos estudos sobre Cultura Negra e co-fundadora do Movimento Negro Unificado, lutavam contra as violações e privação de direitos que atingiam especificamente as mulheres negras, reinvidicando a importância de se defender perspectivas feministas latinoamericanas não brancas, para o rompimento das estruturas de opressão que se dão não somente nas relações de gênero, mas de forma articulada às relações raciais e sociais.

Nesse sentido, o 8M é uma data política e deve englobar e visibilizar pautas interseccionais, desconstruindo a ideia que unifica as mulheres em um mesmo grupo. É essencial considerar os diferentes recortes, pois existem mulheres que são desproporcionalmente mais atingidas pelos efeitos do sistema extremamente desigual, machista e racista em que vivemos.

O atual contexto de crise evidencia ainda mais essas questões, em decorrência dos efeitos da pandemia e da completa incapacidade política do Governo Federal, a pandemia escancarou as imensas desigualdades de gênero, raça e classe existentes no país. As mulheres negras, moradoras de favelas e periferias, mães solo chefes de família e LGBTs, são as mais atingidas em diferentes âmbitos. Além de estarem na linha de frente da COVID-19, por ocuparem 87% dos cargos de enfermagem, realizarem 96% do trabalho doméstico e serem 62,4% do grupo que atua na pesquisa e ciência do Brasil — segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2019 — também estão sofrendo os efeitos de uma segunda pandemia, a da violência de gênero doméstica.

No Brasil, os dados já eram extremamente alarmantes. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma mulher é estuprada a cada 11 minutos. Ainda, de acordo com uma pesquisa realizada pelo Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em fevereiro de 2019, somente no ano anterior, 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento, 22 milhões (37,1%) de brasileiras passaram por algum tipo de assédio, e 42% dos casos de violência contra a mulher ocorreram no ambiente doméstico. Muitas vezes por medo ou por conhecer a negligência do Estado, mais da metade das mulheres (52%) não denunciaram o agressor.

Durante o ano de 2020, com a pandemia, houve um aumento de 22% nos casos de feminicídio em 12 Estados do país. O Brasil registrou 105 mil denúncias contra a mulher nesse ano — uma a cada cinco minutos. Esses números evidenciam a situação de extrema vulnerabilidade de mulheres que, muitas vezes, são obrigadas a viverem com seus próprios agressores. O Meu Recife, junto com a Minha Jampa, a Minha Igarassu, a Minha Porto Alegre e a Minha Campina, liderou uma campanha de pressão aos governadores para a subscrição por feminicídio. Neste movimento, Pernambuco aderiu ao Protocolo Latino-americano de investigaçaõ de mortes violentas de mulheres.

Assim, as pautas levantadas não somente no #8M, mas diariamente por milhares de mulheres feministas que lutam pela equidade de gênero e racial, por direitos reprodutivos, por mais espaço na política, pela divisão dos trabalhos domésticos e de cuidado contra os papéis de gênero, pelo acesso à mobilidade segura e à moradia digna, e contra a violência doméstica e sexual, devem ser centrais nos debates políticos e no desenho de políticas públicas.

As mulheres são protagonistas nos movimentos de lutas urbanas em todo o mundo, e especialmente aqui em Recife, cidade marcada por resistências. São tantas, há tanto tempo! Seria impossível listar todas aqui neste espaço. Mas gostaríamos de citar algumas e estender nossa homenagem a todas as mulheres que se doam diariamente na defesa dos Direitos Humanos e para que tenhamos justiça, em todos os cantos da cidade, para todas as pessoas!

São organizações como Espaço Mulher de Passarinho, formada a partir da ação de mulheres periféricas, que há anos apontam a ausência de políticas públicas no bairro de Passarinho, as dificuldades que enfrentavam em suas casas e sobre as condições de trabalho. Como o Grupo Mulher Maravilha, fundado na década de 70 em Nova descoberta, que luta por justiça social através da promoção dos direitos humanos numa perspectiva de gênero e etnia, pelo acesso à cidadania da população vítima de exclusão social e empoderamento das mulheres para a construção de uma nova sociedade. Como o Liberta Elas, um coletivo de mulheres feminista interseccional, antirracista ,anti-punitivista e abolicionista penal, que luta contra toda justiça que seja racista, classista, sexista e lgbtqiafóbica, e que estabelece trocas de afetos e diálogo entre mulheres, além da defesa dos direitos das mulheres que se encontram sob custódia do Estado.

Precisamos falar ainda do que é ser mulher trabalhando no Terceiro Setor. Independente do campo de atuação, somos lideranças, mães, mulheres e profissionais que lutam diariamente pelo equilíbrio e pela concretização dos sonhos. Tendo como sonho o coletivo, não a realização individual. É preciso nutrir diariamente esses sonhos para que possam florecer e reconhecer que, talvez o mesmo seja realizado pelas gerações futuras.

O cenário que vivemos hoje nos dá poucos motivos para comemorar, são tantas lutas, tanto por se fazer! Mas sempre teremos muitas para agradecer. Agradecemos às muitas mulheres que temos em nossas vidas e que construíram coletivamente o caminho do Meu Recife. Agradecemos em especial as mulheres com quem dividimos esse texto, que representam nossa visão de presente e futuro e que diariamente nos fortalecem a fazer política com coragem e afeto.

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Somos uma rede de ativistas multicause de mobilização social que luta por um Recife mais justo e participativo. Apoie o Meu Recif! Pix: CNPJ: 36.448.294/0001–66

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